Octávio Ignácio | obra/work

Conheci o Museu de Imagens do Inconsciente (MII) nos meados dos anos 1970, levado pelo meu inseparável amigo e irmão Luiz Carlos Mello, que depois tornar-se-ia o principal colaborador da Dra. Nise da Silveira, fundadora do Museu. Nos primeiros meses eu, jovem estudante de música, recuperei um velho harmônio que lá havia. Passei a tocar longos improvisos durante as atividades do ateliê de pintura. O ambiente de concentração e a energia que envolvia aquele lugar eram incríveis! Numa dessas manhãs Octávio Ignácio se aproximou de mim e me deu um conselho: “Muito cuidado com a música. Ela é muito boa, mas muitos padres já ficaram loucos por causa dela”.
 

Octávio era um diferencial no ateliê: os outros frequentadores eram internados, vestiam uniformes e cumpriam a triste rotina do hospício – enfermaria, pátio, ateliê, enfermaria... ele era um participante externo, vinha de sua casa e trajava roupas comuns.

Aqueles, constantemente mergulhados no profundo e tumular silêncio causado pelos longos anos de internação em lugar tão triste, enquanto Octávio esbanjava alegria e se mostrava quase sempre extrovertido, jovial e brincalhão. 

Hoje vejo claramente a força simbólica que esse fato representava naquele momento. Depois de 12 internações, ele começou a desenhar e pintar e depois disso não foi mais reinternado. Octávio representava o futuro, a transição entre o velho e cruel sistema da psiquiatria tradicional e a revolução iniciada por Nise, baseada no afeto e na liberdade: hoje, nos ateliês do Museu de Imagens do Inconsciente, todos estão livres da prisão asilar!
 

Essa personalidade irrequieta e alegre reflete-se em seu trabalho criativo. Os desenhos de Octávio constituem a quase totalidade de sua obra, são raras as pinturas. Prefere as linhas, que podem ser só de grafite, com as quais executa magníficos esquetes; ou coloridas, onde as cores estão sempre intrinsecamente ligadas ao significado que ele impõe às formas que brotam de seus lápis. Muitos desses desenhos assemelham-se a estruturas renderizadas, hoje tão comuns no mundo digital. Octávio geralmente limita-se ao essencial, não lhe incomodam os espaços vazios do suporte, para ele não existe o horror vacui: pelo contrário, se aproveita da transparência para mostrar detalhes inusitados, nem sempre agradáveis: mandíbulas, rostos terríveis que se escondem sob a pele da face, múltiplas visões de corpos e metamorfoses. Em Octávio, tudo é orgânico, tudo tem vida, tudo pulsa.
 

De sua profissão de serralheiro trouxe várias coisas: o senso de proporção, a geometria das estruturas de grades e portões que muitas vezes são transpostas para vir servir como base da harmonia de seus desenhos; o desejo de ornamento, as curvas graciosas dos ornatos tantas vezes representados de per se contaminam as representações do corpo humano, transmutando-o em seres híbridos: às vezes semideuses, com atributos que trazem ecos herméticos ou alquímicos; às vezes desconcertantes configurações polisexuais. Jamais se vê em Octávio o corpo como simplória integridade física: ele nos traz um conjunto de ideias e representações de vivências profundas e muitas vezes perigosas.
 

Possuidor de uma mente rica e perspicaz, suas observações, segundo a Dra. Nise da Silveira, são lições que todos deveríamos aprender. “A pessoa que tem medo do bicho acaba sendo dominada por ele”, diz em seu livro Os cavalos de Octávio Ignácio, onde as imagens criadas sobre o tema do cavalo são acompanhadas por significativos e profundos comentários. O livro, publicado pela FUNARTE, é um marco na história das coleções da loucura. Representa a quebra de um paradigma de exclusão, onde a voz de um artista que criou suas obras no âmbito de um serviço terapêutico dentro de um hospital psiquiátrico faz-se ouvir, alto e bom som, exarando lições a cada frase, lições essas que nós queremos seguir aprendendo.
 

Sejamos pois, todos nós, discípulos do Mestre Octávio na exposição ora apresentada.

 

Eurípedes Junior

Museólogo - Museu Nacional de Belas Artes

Vice-presidente da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente

usa_flag.png

I became acquainted with the Museum of Images from the Unconscious (Museu de Imagens do Inconsciente - MII) in the mid-1970s, when my inseparable friend and brother Luiz Carlos Mello took me there. He would later become the main collaborator of Dr. Nise da Silveira, the founder of the Museum. In those first months I, a young music student, restored an old harmonium that was there. I started playing long improvisations during the activities in the painting studio.

The atmosphere of concentration and the energy surrounding that place were incredible! On one of these mornings Octávio Ignácio approached me and gave me a piece of advice: “Be very careful with the music. It’s very good, but many priests have already gone crazy because of it.” 

Octávio was an unusual presence in the studio: the other regulars were interned there, dressed in uniforms and complying with the sad routine of the hospice – infirmary, patio, studio, infirmary… He was a participant from outside, came from his home and wore ordinary clothes. There were those who were constantly immersed in the deep and tomb-like silence brought on by long years of being interned in such a sad place, while Octávio exuded joy and was almost always extroverted, jovial and playful.  
 

Today I clearly see the symbolic power this fact had at that time. After 12 hospitalizations, he began to draw and paint and was never again readmitted. Octávio represented the future, the transition between that old and cruel system of traditional psychiatry and the revolution that Nise had initiated, based on affection and freedom: today, everyone in the ateliers of the Museu de Imagens do Inconsciente is free from asylum prison! 

This bustling, creative and cheerful character is reflected in his creative work. Octávio’s drawings make up almost his entire work, paintings are rare. He prefers lines, which can only be drawn with graphite pencil, with which he creates magnificent sketches, or coloured ones, in which the colours are always intrinsically linked to the meaning he gives to the forms that spring from his pencils. Many of these drawings resemble rendered structures, which are now so common in the digital world. Octávio usually restricts himself to the essential. Empty spaces on the media don’t bother him, for him there is no horror vacui: on the contrary, he makes use of transparency to show unusual details, not always pleasant: jaws, terrible faces that hide under the skin of the face, multiple views of bodies and metamorphoses. For Octávio, everything is organic, everything has life, everything pulsates.
 

He utilized several things from his job as a locksmith: a sense of proportion; the geometry of structures such as grids and gates that are often transposed to function as a basis for the harmony of his drawings; a desire for decoration, the graceful curves of ornaments so often represented for their own sake contaminating the representations of the human body and transmuting them into hybrid beings. At times the human figures resemble demigods, with attributes echoing hermetic or alchemical traits; at other times they display bewildering polysexual configurations. In Octávio’s work one will never see the body as a simple physical integrity: he presents us with a set of ideas and representations of profound and often dangerous experiences. 
 

With a rich and sharp mind, his observations, according to Dr. Nise da Silveira, are lessons that we should all learn. “The person who fears the animal ends up being dominated by it,” he says in his book The horses of Octávio Ignácio, in which images created around the theme of the horse are accompanied by meaningful and profound comments. The book was published by FUNARTE and is a milestone in the history of collections on madness. It represents a break with the paradigm of exclusion:the voice of an artist who created his works in the sphere of a therapeutic service inside a psychiatric hospital is heard, loud and clear, issuing lessons with each phrase, lessons that we want to keep learning. 
 

Therefore, let us all be Mestre Octavio's disciples in the exhibition now presented.
 

Eurípedes Gomes da Cruz Junior

Composer, museologist and vice president of the Society of Friends of the Museum of Images from the Unconscious