Fernando Diniz | obra/work

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A pintura de Fernando Diniz é deslumbrante. Não há outro adjetivo que qualifique melhor o vigor de sua imagem, que brilha com a precisão de quem constrói um abrigo para se proteger. É desse envolvimento reconfortante que trata a obra de Fernando Diniz. Há luxo. Há calma. Há volúpia nas suas imagens. É como se perseguisse um ideal burguês ao qual nunca teve acesso, mas do qual retirou a palpitação que alimenta seu imaginário.  Alijado, mas prisioneiro, devolve, através de sua arte, uma profunda compreensão e admiração àquilo que nunca lhe foi dado ter.

Sua pintura é expressão de seu desejo de penetrar esse universo. 
 

O universo de Fernando Diniz é todo povoado, porque ele é dividido em mil facetas diferentes. Como um lapidador, através dos cortes em ângulos, vai revelando diferentes brilhos de sua imaginação plástica.
Quando lhe perguntei de qual das séries apresentadas na exposição ele mais gostava, respondeu que a pintura é como os dias, cada um tem um santo diferente. Entendi, então, que não era possível comparar.
Cada dia tem um santo. Cada santo tem sua especificidade; assim como sua obra.

 

Podemos transitar por ela como se estivéssemos em um arquivo. É um inventário fantástico de formas. É enciclopédica. Da casa, concentra-se na sala de visitas e abarca cada detalhe (lustres, sofá, tapetes, piano, partitura, cortinas, fruteiras). Da casa, ainda, as naturezas-mortas, dezenas de frutas e flores diferentes, como se catalogasse uma a uma. Da série de veículos, transportes aéreo, marítimo e terrestre. Instrumentos musicais, um universo sem fim de estrelas. Enfim, tudo o que cabe no mundo cabe na obra de Fernando. 

Trata-se de uma pintura feérica e opulenta. Tem a força dos sentidos que se abrem para perceber, receber e inventar no papel as texturas, as cores, as formas; a sensualidade do universo plástico.
 

Fernando é um dos principais representantes dessa “renascença” única das artes plásticas brasileiras, que a doutora Nise da Silveira soube tão delicada e determinadamente reunir e deixar acontecer no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro.

Sua obra é comovente. É o testemunho plástico de um dos nossos maiores artistas. É a demonstração de uma construção plástica direta, precisa e preciosa de algo inominável e incomparável, que são a força e o mistério do grande Fernando Diniz.
 

Márcio Doctors

Curador e crítico de arte.

(Texto extraído do catálogo da Mostra do Redescobrimento – Imagens do Inconsciente, Fundação Bienal de São Paulo, Associação Brasil 500 Anos Artes Visuais, 2000)

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Fernando Diniz’s painting is astonishing. There is no other adjective that better describes the vigor of his image, which shines with the precision of one who constructs a shelter to protect himself. This comforting aspect is what the work of Fernando Diniz deals with. There is voluptuousness in his images.
It is as if we were after bourgeois ideal to which he never had access, but from which he removed the heartbeat which fuels his imagery. Pushed aside, and yet a prisoner, he reveals through his art a profound comprehension and admiration of that which it was never given unto him to have.

His painting is an expression of his desire to penetrate this universe.

Fernando Diniz’s universe is jam-packed with figures, because it is divided into a thousand diffrents facets. Like a gem cutter, by way of his angular cuts he revels differents brillances of his artistic imagination.
When I once asked him which of the series presented in the exhibition he liked the most, he responded that painting is like the days of the calendar, each one has a different saint. I then understood thet it was not possible to compare. Each day has its saint. Each saint has his or her specialty; just like Fernando’s artwork.

We can transit through it as though we were in an archive. It is a fantastic incentory of forms. It is encyclopedic. The house series concentrates on the living room and encompasses every detail (chandeliers, sofas, rugs, pianos, sheet music, curtains, fruit baskets). There are also still lifes, dozens of different fruits and flowers, as though they were catalogued one by one. In the vehicle series there are aircraft, watercraft and land vehicles. Musical instruments, an endless universe of stars. In short, everything that is in the world is suitable for Fernando’s work. 

It is a fairylike and opulent painting. It has the force if the senses that open to perceive, receive and invent on paper the textures, the colors, the forms; the sensuality of the visual-arts universe.
Fernando is one of the main representatives of his unique “renaissance” of Brazilian visual art, which doctor Nise da Silveira knew how to so delicately and determinedly bring together and allow to happen at Engenho de Dentro Psychiatric Hospital.

His ouvre is impressive and moving. It is the aesthetic testimony of one of our greatest artists. It is the demonstration as a direct, precise and precious artistic construction of something that is unnamable and incomparable; which is the force and mystery of the great Fernando Diniz.


Márcio Doctors
Curator and art critic.
(Extract from a text from the catalogue "Rediscovery Exhibition - Images from the Unconscious", São Paulo Biennial Foundation, Brazil 500 Years of Visual Art Association, from 23 April to 7 September 2000)